Relatório da IEA destaca avanços, desigualdades e desafios estruturais nos investimentos em energia globais
O relatório World Energy Investment 2025 da Agência Internacional de Energia (IEA) mostra que os investimentos em energia deve alcançar US$ 3.3 trilhões em 2025 globalmente, sendo US$ 2.2 trilhões alocados para tecnologias de energia limpa. Esse valor é duas vezes maior do que o registrado em 2020 IEA, Executive Summary.
“O investimento em energia limpa disparou, impulsionado por um ímpeto sem precedentes em energia solar fotovoltaica, redes elétricas, baterias e veículos elétricos.”
Essa transformação é guiada por políticas industriais em grandes economias, mas ainda marcada por uma distribuição geográfica desigual. Enquanto economias avançadas aceleram sua transição energética, países em desenvolvimento enfrentam sérios obstáculos para atrair investimentos.
China e Estados Unidos: a energia como fator geopolítico
Com destaque, a China representa quase um terço do investimento global em energia limpa em 2025, mais do que os Estados Unidos e a União Europeia juntos. Além disso, a China transformou-se em um hub estratégico da cadeia global de valor em energia limpa.
O domínio em manufatura de painéis solares, baterias e veículos elétricos posiciona o país como peça central da transição energética global — o que gera tensões comerciais com o Ocidente.
Entretanto, os Estados Unidos, por sua vez, respondem com o Inflation Reduction Act e outras medidas que visam fortalecer a produção doméstica e reduzir a dependência de tecnologias chinesas. O investimento em energia tornou-se parte de uma nova disputa industrial e geopolítica, ampliando o peso estratégico da transição energética nos acordos comerciais internacionais.

União Europeia: transição como resposta à guerra
A principio, a União Europeia intensificou seus investimentos em energia limpa como resposta direta à crise energética provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. A interrupção no fornecimento de gás natural russo acelerou o reposicionamento do bloco, que agora prioriza segurança energética e reindustrialização verde.
As políticas do Green Deal Industrial Plan visam reduzir dependências externas e fomentar tecnologias estratégicas como hidrogênio verde, eólica offshore e redes inteligentes. Além do aspecto climático, a transição energética na Europa passou a ser encarada também como uma questão de soberania econômica e estabilidade social.
América Latina: renováveis, minerais e biocombustíveis
Na América Latina, 80% dos investimentos em energia são destinados a tecnologias limpas — um dos maiores percentuais do mundo IEA, Latin America and the Caribbean.
“A participação da região no investimento em energia limpa está entre as mais altas do mundo — 8 em cada 10 dólares.”
O Brasil lidera o avanço em renováveis, especialmente solar e eólica. Além disso, o país se destaca como referência global em biocombustíveis de baixa emissão, com cadeias consolidadas de etanol e biodiesel, e protagonismo crescente no desenvolvimento de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF).
A região também abriga reservas estratégicas de minerais críticos como lítio, cobre e níquel — insumos indispensáveis para baterias e transição energética global. No entanto, lacunas regulatórias, instabilidade política e carência de financiamento seguem como entraves para maior escala.
África e países emergentes: risco de exclusão energética
Apesar do impulso global, existe um risco real de uma transição em duas velocidades, com muitos países sendo impedidos por altos custos de financiamento, falta de infraestrutura de rede e baixa capacidade institucional. A África, por exemplo, representa apenas 2% do investimento em energia limpa, apesar de abrigar 20% da população mundial.
As soluções de baixo carbono esbarram na ausência de infraestrutura e no alto custo do capital. Nesse sentido, a IEA destaca a urgência de instrumentos internacionais que facilitem investimentos em energia limpa nesses mercados emergentes, especialmente para garantir justiça climática.
A Era da Eletricidade: redes precisam acompanhar a geração
O relatório também alerta para um descompasso crítico: os investimentos em geração de energia renovável crescem mais rápido do que os aportes em redes de distribuição e transmissão. Isso compromete a integração de novas fontes ao sistema, eleva perdas técnicas e limita o avanço da eletrificação.
A IEA classifica o momento atual como o início de uma “Era da Eletricidade”, onde o fornecimento confiável e limpo depende de redes mais robustas, digitais e interconectadas. Mas há um déficit estrutural: para cada dólar investido em geração, menos de 40 centavos vão para redes — e essa proporção precisa mudar.
Conclusão: oportunidade de correção de rota
O cenário traçado pela IEA para 2025 é ambíguo: enquanto o investimento em energia limpa atinge recordes históricos, as desigualdades regionais, os gargalos de infraestrutura e os riscos geopolíticos ameaçam o avanço uniforme da transição energética.
“O ritmo do investimento em energia limpa é cada vez mais moldado por políticas industriais, e não apenas por políticas climáticas.”
A América Latina está bem posicionada para liderar em renováveis e biocombustíveis, enquanto a África precisa de um esforço coordenado global para não ficar à margem da nova economia de baixo carbono. Corrigir esse desequilíbrio é não apenas uma exigência moral, mas uma condição essencial para garantir segurança energética e estabilidade climática global.